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MY HERO ACADEMIA: O FENÔMENO HÉROI

O fascínio pelo arquétipo do herói e a ameaça de sua sombra como modelo social.

My Hero Academia é um obra em mangá escrita e ilustrada por Kōhei Horikoshi e adaptada para Anime em 2016. A série se firma como um dos animes mais populares e influentes dos últimos anos. Os eventos acompanham a história do jovem Midoriya como um aspirante a Herói profissional em um mundo onde super poderes são parte do cotidiano.

A fórmula narrativa do super-herói, parece ser o segredo para o sucesso de qualquer processo criativo da última década. Após o estrondoso êxito da Marvel em seu universo cinematográfico, foi desencadeado um coletivo interesse pelo tema, que não demorou a chegar em outros setores de entretenimento.

Embora dialogue com a atualidade, a imagem do herói como símbolo já é antiga na história humana. O conto mais antigo da humanidade (2.100 a.C), escrito em forma de poesia, A epopeia de Gilgamesh, narra a história do rei Gigante, que em seu caminho enfrenta os mais diversos desafios com…

Alquimia, Inconsciente e Full Metal

Alquimia, Inconsciente e Full Metal

 35 litros de agua, 25 kg de carbono, 4 litros de amônia 



Imagem Hermes Trimegisto


 Poucos animes fizeram tanto sucesso como Full Metal Brotherhood, a obra de Hiromu Arakawa, nos faz refletir sobre os paradigmas filosóficos e os questionamentos profundos da humanidade, como por exemplo: Qual sentido da vida? Existe certo e errado? Por que existimos? O que é verdade? Essas perguntas, junto às referências históricas e embates épicos entre os personagens da série, é a fórmula perfeita, que fez com que Full Metal fosse considerado por muitos o melhor Anime/Mangá de todos os tempos. Mas qual motivo que nos leva a identificação com essa história? Quais os conteúdos contidos nas entrelinhas do enredo? Por que a Alquimia (foco principal da série) instiga nossa imaginação? Jung em especial foi um grande estudioso da Alquimia, pois acreditava ser uma expressão do inconsciente coletivo do ser humano, os símbolos, as teorias, seriam representações de conteúdos do inconsciente. Muitos conceitos da psicologia analítica foram inspirados em teorias alquímicas, mas então, o que seria Alquimia? 

Alquimia foi um termo que surgiu na região da Europa durante a idade média (séc V a XV), seus adeptos foram os precursores da Química moderna. Ao fechar seus olhos e imaginar a figura de um alquimista, com todo misticismo, simbolismo e histórias, estará visualizando a imagem de um Alquimista da época medieval, a era de “ouro’’ da Alquimia, que foi sucedida pelo modelo científico experimental. Todavia não é atribuído somente ao período medieval o desenvolvimento da Alquimia, pelo contrário, suas raízes se encontram junto as origens das primeiras civilizações. 




 Imagem do Laboratório e o Oratório  - Henry Khunrath (1609)

Façamos então uma viagem no tempo, a civilização egípcia, um povo extremamente avançado para sua época, reconhecidos por seus feitos incríveis em diversas áreas do conhecimento, como a matemática, astronomia, engenharia, medicina, embalsamento e claro Alquimia. É do Egito a origem do texto atribuído a Hermes Trismegisto (Hermes Três Vezes Sábio), do qual dizem ser o primeiro escrito alquímico, que se baseiam os estudiosos conhecidos posteriormente como Herméticos. O texto que leva o título de Tabula Sma (Tábua Esmeralda) é a base dos princípios fundamentais da Alquimia, este fala sobre a origem do universo e suas leis, em seus versos o famoso conceito de unidade da alquimia é encontrado: " Assim como todas as coisas foram e procedem do Um, pela mediação do Um, assim todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação’’. Voltaremos mais tarde no assunto, nesse momento é importante compreender que a Alquimia é uma linha de estudo filosófico, científico,espiritual que busca compreender as forças do universo e seus princípios, cujo a origem vem das primeiras civilizações humanas. 


Imagem Hermes Trimegisto - O sábio, pai da Alquimia

Voltemos à história, diversos povos tiveram contato direto com os ensinamentos da cultura egípcia, entre eles os Gregos. A Grécia é considerada o berço da filosofia ocidental, existem relatos sobre filósofos como, Pitágoras e Platão terem passado parte de sua caminhada em terras egípcias, estudando e aprendendo os ensinamentos desse povo. Não é a toa que muitos símbolos alquímicos nos remetem a Deuses Greco/Romanos, pois houve grande miscigenação entre essas culturas, a cidade de Alexandria, durante muitos anos, a casa da filosofia e sabedoria do mundo, é um exemplo da pluralidade cultural da época. Com passar dos anos com a conquista do Egito pelo império de Alexandre o Grande e o posterior domínio dos Romanos, houve a destruição de muitos textos, e ensinamentos, logo uma perda do conhecimento antigo, em seguida a invasão dos povos bárbaros, que deu início a idade média, também contribui na perda dos textos alquímicos,entretanto algo tão profundo como a Alquimia sempre se revela aqueles que a buscam. 

Nas terras das nações árabes e na Europa oriental (Fenícios,Persas,Turcos), grande parte da cultura ocidental é preservada, textos, livros, ensinamentos, que foram guardados e estudados pelo povo árabe, que por volta do século VII obtiveram grande ascensão, devido a expansão dos muçulmanos. Não é a toa que surgem filósofos árabes renomados influenciados por textos platônicos e aristotélicos. Em 1110 D.C os árabes possuíam conhecimento avançado em relação ao resto do mundo, nos campos da astronomia, medicina, agricultura, artes e junto a todo esse conhecimento também sobrevive as bases da Alquimia, que acaba por ressurgir. 

Uma das origens da palavra Alquimia é atribuída ao árabe Al-Khen, ou El- Kimyâ que significa a Química. Os textos antigos alquímicos foram traduzidos da língua árabe para o Latim, o que permitiu o resgate de conhecimento durante a idade média, onde se manteve forte até metade da Renascença. Percebe-se que a Alquimia desde suas raízes até o presente, sofreu influências de diversas culturas, religiões e governos, embora seja considerada pela ciência atual como puro misticismo, é inegável sua contribuição para o desenvolvimento científico do ser humano.Pelos Alquimistas foram descobertos diversos processos e elementos químicos utilizados até hoje em laboratórios de química, nomes famosos como Paracelso, são lembrados como grandes precursores científicos. 

Embora seja um fenômeno característico da história europeia, a alquimia não é restrita ao ocidente, todo o povo possui sua própria Alquimia, mais ao leste os Chineses desenvolveram um complexo sistema alquímico, independente do desenvolvimento ocidental, essa alquimia evoluiu principalmente no campo da medicina, sendo base da acupuntura até hoje. Portanto podemos dividir duas principais vertentes conhecidas:
  •  A ocidental, influenciada pelos povos egípcios, greco/romanos, árabes e europeus. 
  •  A oriental, das culturas como Chinesa, Japonesa, Tibetana, Indiana. 
Essa divisão é muito bem explorada em Full Metal, onde o Povo de Xing, que vem do outro lado do deserto, ao leste do mundo, utilizam princípios diferentes da Alquimia dos Amestrianos, é uma clara referência aos Europeus e Chineses, as duas principais frentes da Alquimia popularmente divulgada nos dias atuais. Mas o que tinha de interessante naquilo que os alquimistas estudavam? É certo que sua contribuição com a ciência é positiva, entretanto diversos conceitos foram superados pela ciência moderna, então, o que os Alquimistas tinham de valor?



Acima Mapa Mundi, Logo abaixo Mapa do Anime FullMetal

A principal elaboração de um alquimista era a transmutação de metais, cujo a manipulação dos mesmos, poderia transformar por exemplo: cobre em ouro. Mas suas ambições não paravam por essa simples manipulação, o elixir da vida eterna, a fabricação da pedra filosofal, o vislumbre da Grande Obra, a compreensão dos princípios universais era o verdadeiro objetivo dos adeptos da arte hermética. Infelizmente os escritos Alquímicos são de difícil compreensão, pois são codificados de modo que apenas, aqueles que conhecem realmente, teriam acesso a todo conhecimento ali contido, era uma forma segundo eles de não cair em “mãos erradas’’. Outro fator que dificulta a interpretação dos textos é que não havia um padrão dos processos químicos, cada Alquimista trabalhava sozinho e através de seus experimentos chegavam a suas próprias conclusões e fórmulas, embora houvesse um consenso entre eles sobre alguns pontos, cada conhecimento era único. Ao longo do tempo pelo viés do modelo experimental, que necessita reproduzir fielmente os processos para se chegar a um estudo comprovado, ou seja, a necessidade de um padrão, pragmatizou a Alquimia como puro misticismo, esoterismo, nunca sendo realmente investigado a fundo algumas descobertas e experimentos. A Alquimia cai então em obscuridade até...

Representação da seqüência das etapas do processo alquímico.
Libavius,Alchymia (1606).


Carl Jung no século XVIII é um dos principais estudiosos que resgatam após longo período de esquecimento as obras alquímicas, dedicando 3 excelentes livros ao tema. Parte de conceitos e nomes que utiliza em sua teoria tem influência da Alquimia. Jung propõe para além do misticismo presente nas obras alquímicas, uma análise psicológica dos alquimistas, procurando saber qual relação psíquica dos mesmos com a chamada Grande Obra. Há um resgate de parte do conhecimento alquímico para uma análise científica no campo da psicologia. Segundo sua teoria do inconsciente coletivo, os conteúdos presentes nesse campo da psique humana tendem a se manifestar, de modo que são projetados, para objetos externos, sejam estes coisas, pessoas, animais. Quando a algo forte o suficiente para se associar, o arquétipo é ativado e transferido a um objeto, é o que ocorre por exemplo com um símbolo, que embora sem significado exato é capaz de atingir e provocar as mais diversas reações aqueles que o utilizam. O símbolo tem o poder tanto de unir uma nação, como de ativar os mais terríveis demônios da humanidade. A Alquimia é recheada de símbolos, o nome atribuído aos metais e suas qualidades físicas, os levam devido há qualidades associadas a Divindades, forças da natureza.

O elemento químico mercúrio, é considerado pelos Alquimistas como o princípio, que remete ao Planeta de mesmo nome, que por consequência carrega o nome do Deus conhecido pelos Gregos como Hermes, o Deus da sagacidade, sabedoria, o hermafrodita, é o primeiro planeta do sistema solar, a qualidade fluida do mercúrio é associada a capacidade de Hermes, de ser a única Divindade a navegar entre os mundos. Podemos notar que para além de um objeto material, existe uma associação simbólica, entre o físico e espiritual. É inadmissível para o alquimista distinguir entre os conhecimentos químicos dos espirituais, ligados ao transcendente, aos Deuses e astrologia, é o princípio de que tudo é UM. Pois o que ocorre no cosmos, se manifesta nos objetos por conseguinte no homem, esta é a visão da Alquimia.



Imagem Hermes Deus Grego, segurando em sua mão esquerda o Caduceu.

O foco de Jung é justamente nessa ótica, ele considera como um fato psíquico as constatações dos alquimistas, que descrevem minuciosamente seus experimentos, que por mais místicos que sejam, possuem riqueza em seus detalhes, o sentimento descrito nos impressiona. Para ele de algum modo, o modelo artesanal dos alquimistas, era uma forma do mesmo entrar em contato com seu mundo interior, com seu inconsciente, e ao trabalharem na Magnum Opus, haveriam de manifestar os conteúdos presentes em sua psique nos objetos materiais, tendo por consequência, visões, insights, devaneios, que traziam a sua consciência aquilo que subjaz em seu inconsciente. Estando os alquimistas cara a cara com seus demônios internos, a única opção era se defrontar com sua sombra. Ao realizar tal façanha alcançariam os segredos do universo. 

Jung ousa analisar os relatos de sonhos e visões dos alquimistas, um trabalho minucioso, de um homem que estudou profundamente os símbolos alquímicos. Na próxima parte do artigo trataremos de alguns temas clássicos da Alquimia presentes no Anime Full Metal e explorados através das teorias da psicologia analítica, se prepare para um profundo despertar do inconsciente. Para ler a segunda parte CLIQUE AQUI!


Alegoria Alquímica da Tábua de Esmeralda Século XVII.

REFERÊNCIAS


  1. Arakawa, Hiromu. Fullmetal Alchemist. Viz, 2005. 
  2. Hermes. Corpus Hermeticum: Discurso De Iniciaça̧o: a Tábua De Esmeralda. Hemus. 
  3. Jung, Carl Gustav. Estudos alquímicos. Vozes, 2002. 
  4. Jung, Carl Gustav., et al. Psicologia e Alquimia. Vozes, 1991. Legge, James, et al. 
  5. The Tao Te Ching. Ch'eng-Wen, 1969.
  6. Serge Hutin. História Geral da Alquimia.Pensamento, 2010.



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