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Nosso mais novo artigo

CAROLE E TUESDAY

A linda animação que propõe uma reflexão profunda sobre conexão entre Música e Alma
Imagem/Divulgação
Com um projeto de animação em cores vivas e cenários deslumbrantes, o anime produzido pelo estúdio Bones e dirigido por Shinichirō Watanabe (Cowboy Bebop e Samurai Champloo) e Motonobu Hori, navega por uma civilização recém futurista, em que o planeta terra está em colapso e aqueles com melhores condições sociais habitam Marte, onde robôs e máquinas com I.A (Inteligência Artificial) são parte comum do cotidiano. 
Toda a história tem como base a música e sua conexão profunda com a alma humana. Todavia neste futuro  as artes, em especial as músicas são criadas com tecnologia avançadas I.A. (inteligência Artificial), comandadas por empresas do entretenimento. 
As personagens principais da série são de mundos divergentes, Tuesday é parte da classe nobre Marciana, presa a imagem da mãe que vive pelo status social. Enquanto Carole é uma órfã abandonada pelos pais imigrantes do planeta …

FRONTEIRAS DO INCONSCIENTE

Maria, Rose e Sina


Com o final da terceira temporada de Shingeki no Kyojin, muitos mistérios nos foram revelados, a obra de Hajime Isayama continua se demonstrando digna de prima. O envolto em torno do segredo, de fora das muralhas e sua revelação, são com certeza o ápice do anime até o momento. A sensação da descoberta de algo além de nós, traz uma mistura de medo, euforia, desespero, alívio e esperança. Esses sentimentos, o choque de realidade, representado como a morte de algo velho e o deparar com o novo, o desconhecido, até então oculto e incompreendido, é a consciência de um fato, que não pode mais ser negado, ou ignorado. Essa “morte” do velho, possui um simbolismo, que no fundo, em nossa mente sussurra: “As coisas nunca mais serão as mesmas”, significa que a partir desse momento, é necessário seguir em frente, pois cada passo, será uma nova descoberta, um novo desafio e tudo será diferente, pelo simples fato, de adquirir consciência de algo.


        

           O Artigo a seguir contém Spoilers! 
                             Fique ATENTO!

YMIR 

Essas fases de “morte” como transformação, são experimentadas em diversos momentos de nossas vidas, a primeira ida a escola, a transição para a adolescência, da mesma para a fase adulta, em seguinte a velhice, o caminho humano é como diria a Esfinge, transitório, do raiar da manhã, até o pôr do sol, caminhando com diversas patas. Muitas representações simbólicas de transformação, são encontradas em mitos e lendas, talvez, a mais famosa do mundo ocidental seja a história de Adão e Eva. Ao comer do fruto proibido do conhecimento, os primeiros humanos, têm consciência de sua existência, e a condição do qual vivem, enxergam o que os cerca. Um paraíso, construído por Deus, apenas para eles, um local divino que provém tudo que necessitam. Com o saber de tais fatos, surgem dúvidas, inquietações e consequente problemas, que faz com que aquele local, o Éden, não lhes servir mais. Pois agora a consciência assume o papel da natureza primeira, ela ocupa seu espaço. A reflexão é a característica principal desse estágio, o fator natural, o agir instintivamente e empiricamente, dá lugar às dúvidas e problematizações. Segundo Jung esse afastar-se dos instintos e a oposição a eles, é um fator contribuinte para a “criação” da consciência, semelhante a um adolescente rebelde, que indaga aos pais: Agora eu cuido da minha vida. 

Essas fortes oposições ao homem primitivo e sua negação geram como consequência barreiras psíquicas, que nos afastam do inconsciente,do ser animal que somos. O período de domínio inconsciente sobre o consciente, realmente existiu, a muitos anos atrás, com os primeiros humanos. O paraíso de Adão e Eva, existiu enquanto, seres “puros” de consciência, nesse momento de nossa história, a natureza cumpria o papel do intelecto, as soluções para todos os problemas estavam em seu seio. 

 [750] “Por que a consciência agora é chamada para fazer tudo aquilo que a natureza sempre fez em favor de seus filhos, a saber : Tomar decisões seguras, inquestionáveis, e inequívocas''.

Carl Jung, Etapas da Vida Humana 


                                                                         Ymir e o Demônio - Shingeki no Kyojin

O que podemos afirmar sobre esse despertar, é tão somente, o fato de que surge por meio de um rompimento, uma ruptura através de um confronto que resulta em dualidade, a separação das partes. Na mitologia, esse emergir é representado pelos contos de criação do universo, que em alguns casos, ocorre por meio de batalhas ferozes entre Deuses, ou, pelo simples e misterioso despertar da luz que surge em meio a escuridão. A exemplo dos Gregos e Chineses: 

Conto Grego: No princípio era o Caos. Caos, em grego(Kháos), do (khaínein), abrir-se, entreabrir-se, significa abismo insondável. O Caos é "a personificação do vazio primordial, anterior à criação,quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo" 

Conto Chinês: Na tradição chinesa, o Caos é o espaço homogêneo, anterior à divisão em quatro horizontes, que equivale à criação do mundo. Esta divisão marca a passagem ao diferenciado e a possibilidade de orientação, constituindo-se na base de toda a organização do cosmo.  " A existência e a inexistência geram-se uma pela outra...ambos são distintos em seus nomes mas tem a mesma origem...O comum entre os dois se chama mistério".

A ruptura com a mãe natureza deixa suas marcas, nos sentimos órfãos e abandonados, obrigados a seguir pelo caminho que agora conseguimos enxergar, sabemos que não a volta àquele estado anterior, sendo impossível esquecer a consciência de um fato. A culpa pelo próprio ato de nascer, como algo além de, e sofrimento pelo, deixar de. O pecado original, o sacrifício do estado de inocência, é um ponto chave que ocorre em vários momentos do anime, sendo o mais marcante, a primeira aparição dos Titãs na muralha de Maria, após cem anos de “paz”, o olhar do Titã Colossal por cima dos muros e o desespero dos personagens principais, ainda crianças, marca essa fase transitória, no qual aquela vida pacífica se demonstrou apenas uma ilusão passageira. 



[751] “Cada problema, portanto, implica na possibilidade de ampliar a consciência mas também a necessidade de nos desprendermos de qualquer traço de infantilismo e de confiança inconsciente em a natureza. Esta necessidade é um fator psíquico de tal monta, que constitui um dos ensinamentos simbólicos mais essenciais da religião cristã. É o sacrifício do homem puramente natural, do ser inconsciente e natural, cuja a tragédia começou com o ato de comer a maçã do paraíso...nos apresenta o despontar da consciência como uma maldição.” 

Carl Jung, Etapas da Vida Humana 

No anime, se levarmos em consideração as muralhas em seu significado metafórico, podemos compreender o seu caráter materno, não à toa, são batizadas com nomes femininos, a primeira e maior delas, Maria a mãe de Jesus, portanto um símbolo da natureza e o inconsciente que nos cerca. A diante analisaremos algumas considerações acerca das muralhas de Maria, Rose e Sina.

 ANOTHER BRICK IN THE WALL 


“Todos são somente tijolos na parede” 

Tradução música Another brick in the wall - Canção da Banda Pink Floyd





Carl Jung, foi um dos grandes responsáveis, por trazer a questão do inconsciente como um fenômeno existente e presente em nossas vidas diárias. Devemos imaginar, a grosso modo, o que os psicanalista e pensadores desse período estavam querendo dizer: Há algo em sua mente, que você desconhece, do qual não tem controle e possui vontade própria. Hora, assumir que existe algo dentro de nossa mente, que não possuímos controle, um pensamento ou ação, que nos passa despercebido, que entretanto pode influenciar toda nossa vida, se essas afirmações lhe soam estranhas, para a época em que foram elaboradas em meados de 1900, era uma verdadeira revolução cognitiva. Nosso consciente, a força responsável por tudo que construímos, plataforma onde depositamos nossa confiança, não é o único pilar, e pior, não é o centro da sala de nossa existência. Nesse momento, em pleno Iluminismo, com a glorificação do Homem como centro do Universo e a razão como “arma” suprema, em sua luta contra a natureza, seu trunfo, o aspecto cognitivo, a luz capaz de iluminar os cantos mais obscuros da ciência, se depara com uma inconveniente descoberta. Somos apenas poeiras, ao vento?! Todas as verdades, certezas, e seguranças, que essa nova era poderia trazer, podem sumir em um simples instante? As muralhas que antes nos protegiam, parece nos cercar, será que existem, Titãs, dentro delas?
Essa dramatização acerca do surgimento desses conceitos parece exagerada, e afinal, realmente é, mas o impacto que causa, ainda é profundo. Após essas descobertas sobre a psique humana, vários estudos e teorias surgem, e buscam respostas para os paradigmas humanos, nesse caminho mecanismos são descobertos, como a famosa teoria de Freud sobre os impulsos reprimidos e a estrutura da psique. Em resumo, nossa mente tem “mecanismos de defesa” que atuam para garantir sua integridade. Portanto, traumas e desejos inapropriados socialmente, são reprimidos perante uma barreira, onde repousam no inconsciente, entretanto, essas potências psíquicas, não desaparecem da mesma, esse espaço onde aguardam, que leva o nome de inconsciente, é um vasto campo de pulsões, que esperam o momento propício para se manifestar novamente, a qualquer deslize de nossa consciência. Sonhos, atos falhos, doenças, são exemplos desses “escapes” de pulsões. 

Então, não só a Titãs dentro das muralhas, mas muralhas são feitas de Titãs! Carl Jung, vai ainda mais além que Freud, e propõe que, o inconsciente, não é somente um depósito de questões reprimidas e/ou contidas pela consciência, fruto de experiências pessoais, mas um universo infinito de experiências coletivas da humanidade sem qualquer caráter pessoal, uma natureza inata, a priori, como uma essência do ser humano, de onde surgem as potências e os impulsos que nos levam a vida, o berço de nosso nascimento. Uma das representações simbólicas mais associada a esse inconsciente chamado por ele de coletivo é a figura do mar. O mar é o símbolo da imensidão e o desconhecido, não sabemos os seres e a vida que habita em suas profundezas, nos sentimos inábeis, perante ele, uma gota em meio ao oceano. 

" Além da muralha, há um mar. O Armin que disse...Mas além do mar, eu sempre me questionei o que tinha além dele"

Eren episódio 1, terceira temporada.

Nessa escuridão, estão contidos, monstros, demônios, seres devoradores, como Titãs que desejam nossa carne. O inconsciente é uma mãe feroz, um Dragão que busca vingança pela desobediência de seu filho, pelo pecado, de ir além. Pois a consciência emerge do inconsciente, como a luz que nasce do Caos. São necessárias barreiras para proteção contra esses seres monstruosos, instintos animais, como a cólera, a luxúria, a gula, pecados humanos, colocados por Dante como punições do mais baixo inferno, memórias e traumas, atos que desejamos esquecer. E o que seria esse inferno, senão um conjunto de muralhas, separadas por níveis? Em Shingeki no Kyojin, as muralhas representam as barreiras de nossa própria consciência, em conjunto ao inconsciente, para garantir nossa integridade, frente ao desespero e a verdade, as memórias apagadas, que revelam: Você não está no controle. As mesmas memórias roubadas pela família Reiss, para esconder sobre a sociedade humana fora das muralhas e vivem em uma prisão.


                                                                              Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli

Os Titãs, são símbolo do devorador inconsciente, guiado apenas pelos seus instintos, um ser que advém da natureza, ele representa, o primeiro estágio do ser humano, antes de morder a maçã proibida do Éden, ou utilizar o fogo de Prometeu. É o ser básico que negamos em nós, que se move em busca de alimento e satisfação, uma verdade que preferimos esconder. O ser humano é um animal, nossa humanidade nos antecede, somos fruto de uma natureza devoradora que se encontra à espreita, cujo a força está além de nosso domínio e compreensão. Por isso são formadas barreiras que nos protegem dos Titãs, nos fazem esquecer, que afora, existe o perigo, e que aqui, neste local, estamos “protegidos” pelo universo que criamos. 



                                                                                Titã Bestial - Shingeki no Kyojin

Entretanto, essa é uma visão, um tanto, demonizada de nosso inconsciente, embora possua conteúdos que podem ser “perigosos”, com o tempo compreendemos que esses demônios, são como a sombra de um gato, que projeta um monstro imenso. Não que essas potências, não tenham a força necessária para impulsionar os maiores males do mundo, como a guerra, o ódio, a fome, a ganância, o preconceito, mas seus conteúdos só ganham força à medida que os alimentamos. 

Dentro de mim, existem dois lobos: O lobo do ódio e o Lobo do amor. Ambos disputam sobre mim. 
E quando me perguntam, qual lobo é o vencedor? Respondo: O que eu alimento.

Provérbio indígena.

No inconsciente coletivo, jaz o veneno e a cura, tesouros também se escondem em meio ao mar, não só reprimimos traumas negativos e sentimentos ruins, mas nossas maiores qualidades, aquelas nunca antes exploradas, vividas, uma parte de nós que nunca pode se nutrir, pois viveu somente a ilusão de dentro das Muralhas, cercada pelo medo de vir a ser. No fim nossa maior força é o poder de escolha, ao nos depararmos com um fato, podemos decidir, se iremos viver dentro das muralhas, ou atravessar o mar e confrontar nosso destino. Ao tomarmos nossa escolha em prol ao impulso a vida, de seguir adiante, os muros gigantes que antes nos protegia, se tornam nossa prisão, em uma ilha minúscula afastada do continente, onde não cabemos mais. 


                                                                          As viagens de Gulliver Jonathan Swift - 1726


 “As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida, se é você que ‘tá nessa prisão! ” 

 Música Minha alma - Canção da Banda O Rappa 

OTHER SIDE AND BEYOND 


Se eu tivesse a audácia de sugerir um nome ao próximo episódio do anime, other side and beyond seria o clichê que eu colocaria, muitos mistérios ainda devem ser revelados, todavia até esse momento a obra nos dá margem a um emaranhado de reflexões, sobre nossas vidas. Quais as ilusões e muralhas que anda construindo em sua volta? Quando olhamos para além dos muros, quais os seres que alimentamos ao longo da vida? Além desse universo pode existir um oceano de infinidades. Cabe a escolha, um passo adiante, em próxima postagem sobre o assunto, iremos situar o nome dessa força que nos joga para além dos muros, seu nome Shingeki no Kyojin (Titã de Ataque). 



Todas as considerações aqui levantadas foram pautadas com base no Anime, não acompanho o mangá, portanto considerei somente as informações que tenho até o momento, fato que não muda a questão simbólica apresentada no primeiro arco da obra. Espero que estejam gostando de nossas postagens, é importante o feedback e comentários de vocês.

 “Será que vivemos apenas para viver, será que procurar, não encontrar, não nos preocupamos , não mudar um pouco, vemos, não ver, nos sentimos para refletir”. 

Tradução música The Other Side - Canção da Banda Beyond the Black 

                                              Referências Bibliográficas


Brandão Junito de Souza. Mitologia Grega: Volume I. Vozes, 2007.

HENRIQUES V.F. Considerações acerca do conceito de psiquificação na obra de Carl Gustav Jung. Dissertação de Mestrado, UFSJ, São João del-Rei, 2015.

Jung, Carl G., and Mateus R. Rocha. A Natureza Da Psique. Vozes, 2000.

Legge, James, et al. The Tao Te Ching. Cheng-Wen, 1969.

SANCHES, A. O instinto de morte e o " além do princípio do prazer": um diálogo entre Sabina Spielrein e Gilles Deleuze. Natureza Humana, São Paulo, v. 20, n. 1, p. 98-114, jul/2018.

                                                           SITES


https://www.vagalume.com.br/pink-floyd/another-brick-in-the-wall-traducao.html

https://www.vagalume.com.br/o-rappa/minha-alma-a-paz-que-eu-nao-quero.html

https://www.letras.mus.br/beyond-the-black/the-other-side/traducao.html

https://mitologiagrega.net.br/deuses-primordiais/

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