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ANIMES ON DEMAND

A GUERRA DOS STREAMING



                   
O anúncio feito pela distribuidora de mídia asiática oriental Funimation Productions no dia 3 de Julho, durante FunimationCon 2020, consolida a era dos animes on demand e atinge os fãs brasileiros com êxtase e preocupação. A empresa americana fundada por Gen Fukunaga (ainda atual presidente) e sua esposa Cindy Fukunaga em 1994 é especializada em dublagem e distribuição de conteúdo asiático, com foco em animes. Inicialmente sua rede se estendia aos EUA e Canadá com a distribuição de diversos títulos conhecidos mundialmente como: Dragon Ball, One Piece, Cowboy Bebop , Akira e Attack on Titan. Entre idas e vindas, vendas e compras de ações, em 2017 a Sony Pictures adquiriu parte majoritária da Funimation e deu início a um ousado conglomerado mundial de animes.

FUNIMATION GLOBAL GROUP


Imagem: Divulgação


No final do mesmo ano foi anunciado a consolidação de um empreendimento em conjunto composto por: pelas subsidiárias Funimation, Madman Anime Group/ Animelab e Wakanim, ambos serviços de vídeo por demanda (VOD) especializados em transmissão simultânea de séries e animes japoneses. Esse conjunto une os principais distribuidores da Oceania, Europa e Norte da América. Com todos seus “filhos” sobre o mesmo teto no início de 2020 surge a sonhada plataforma de Streaming Funimation, com os títulos de todas as plataformas mencionadas. E agora em setembro o gigante chega a América latina com promessas de grande catálogo, ótima qualidade de vídeo e transmissão simultânea animes dublados e legendados com Japão.

OS PIRATAS DOS ANIMES


Imagem: Divulgação


A notícia embora ótima para os fãs, pois é indicativo de um emergente interesse do mercado de entretenimento em animes, pode trazer junto aos “louros” uma antiga polêmica que envolve o meio. Não é escondido que a pirataria no âmbito dos animes é uma questão quase cultural. Para compreender essa afirmação devemos retroceder a chegada dos primeiros animes no Brasil. Nos anos 90 ocorreu a primeira leva de animes transmitidos pela TV aberta, a lendária rede Manchete foi responsável pela legião dos primeiros fãs brasileiros, outros canais e programas por assinatura deram continuidade a esse trabalho, como os extintos Toonami, Invasão Anime e Animax. 

Somente em 2004 se inicia um declínio e a debandada de animes da TV. Nesse ponto uma legião de fãs já estava formada — mangás, músicas, jogos, action figures, eventos e cosplayers, uma verdadeira comunidade cultural se estabelecia. A carência de conteúdos licenciados e traduzidos, os cancelamentos de programas e a espera por novos títulos, foram fatores que deram margem a entrada desse universo na internet. 
 A era dos sites Fansub tinha inicio, o termo de origem inglesa que significa: traduzido por fãs, disponibilizou aos órfãos da TV acesso a milhares de títulos — todos é claro com legendas não oficiais —  e seus "benfeitores" se tornaram amados ícones da salvação. Não só agora se tinha acesso a um imenso catálogo, como as traduções não demoravam muito em relação às estreias nos canais japoneses.

O fato do serviço ser totalmente gratuito facilitou um mercado clandestino que evoluiu ao longo dos anos. Muitos antes de plataformas como Netflix, Crunchyroll e Funimation, o serviço de Streaming de animes já estava funcionando com uma sinergia incrível juntos aos fãs, porém no âmbito da pirataria. A Funimation é uma empresa conhecida por sua posição antipirataria, em outros países diversos foram os processos judiciais que a empresa encabeçou, um verdadeiro “caça às bruxas” dos animes pirateados. Com a chegada do serviço no Brasil uma verdadeira guerra pode ter início contra os sites Fansubs, algo semelhante ao que ocorreu em 2012 com a derrubada de grandes sites de download de séries, filmes e músicas.

O QUE OS FÃS QUEREM?


Imagem: Divulgação

Em um estudo publicado pela revista Consumer Behavior Review, Mídia Streaming e Pirataria: O comportamento do consumidor de Anime no Brasil, são apontados os principais motivos que levam os fãs de animes a consumirem sites Fansub: 

  Legendas coerentes e sem censura: muitas plataformas pagas censuram conteúdos no momento da tradução, que altera em alguns casos o sentido original da obra. Uma simples legenda pode alterar a orientação sexual de um personagem. Isso desagrada aos fãs, que desejam que as legendas sejam as mais literais possíveis. Algo semelhante ocorreu no início do licenciamento de mangás no Brasil, levou certo tempo para convencer as editoras japonesas sobre a importância das onomatopeias nas versões brasileiras de mangás,é importante ao consumidor preservar a estética de leitura e a experiência cultural que o produto oferece. Os Fansubs procuram respeitar esse interesse. 

 Transmissão e títulos simultâneos: Um grande erro que as diversas empresas de entretenimento cometem é a falta de sensibilidade e conhecimento de seu público. No mundo digital, globalizado, com rápido tráfego de informação o consumidor não quer esperar meses para o lançamentos de filmes, séries e títulos em seu país — ainda mais quando o mesmo tem enorme potencial de consumidores. A exclusividade de títulos em catálogos de determinado país ou região não é aceitável aos fãs. Os Streaming piratas surgem exatamente dessa defasagem, embora não apresentem transmissões simultâneas todos os títulos se encontram com fácil acesso. 

  Variabilidade : Enquanto o catálogo de Streaming pagos é limitado, os sites fansub oferecem todo conteúdo já produzido e ainda em andamento. A grande pergunta é: quantas plataformas vou ter que assinar para ter acesso a todo conteúdo que desejo consumir? Fãs de animes são ecláticos e consomem todo tipo de gênero, do Shounen (ação,voltado a adolescentes) ao Yaoi (dramas de relações homoafetivas entre meninos). 

  Gratuidade: Por fim, a questão monetária está sempre em vigor e levanta a inocente dúvida: por que assinar um conteúdo pago se ele é disponível de graça na internet? 

 Todas as questões e preocupações levantadas pelos fãs são válidas, o que não desmerece o serviço das plataformas de licenciamento oficial, que apostam em qualidade no serviço, transmissão simulcast e interação com a comunidade de fãs. Obviamente em relação a pirataria o mercado tende a se posicionar firmemente. Afinal a compra de produtos licenciados de certo modo mantém o dinheiro injetado na elaboração de animes, que tem alto custo de produção.

DUELO DE TITÃS


Imagem: Divulgação

Embora enfrente problemas em relação a pirataria não é só com os sites Fansub que a Funimation terá competição. A Crunchyroll que oferece a mais tempo o mesmo serviço, aos poucos tem conquistado os fãs Brasileiros com seu catálogo imenso, legendas de qualidade e a disponibilidade de alguns títulos gratuitos. A empresa tem se estabelecido fortemente por uma de política de aproximação com o consumidor algo que conta muito para o público. Há um canal direto com os consumidores, que podem deixar suas reclamações, opiniões e pedidos. 

Talvez a principal vantagem da Crunchyroll sobre outras plataformas é sua aposta em animações derivadas de Webtoons (Mangás digitais Coreanos). O recente sucesso de Tower of God e a estreia de The God of High School falam por si só. Esses títulos originais estão prestes a revolucionar todo o mercado de animes. Essa aposta é derivada do empenho da empresa em conhecer e ouvir o publico, um senso de comunidade. 

 Embora não  esteja focado somente em animes, a Netflix não pode ficar de fora desse embate. Sua vantagem antecede as práticas da Crunchyroll, que começou somente agora a apostar em originalidade. A Netflix é especialista no quesito original, a plataforma foi responsável pelo primeiro anime transmitido simultaneamente em todo globo e desde então produz animes originais, com parcerias com grandes estúdios e diretores do Japão.Em termos de convergência cultural a empresa dispara a frente e propõe novos meios de produzir um anime, seu catálogo pode ser incompleto e humilde, mas seu anseio pelo novo é um trabalho admirável.

ANIMES ON DEMAND


Imagem: Divulgação

O estudo Hipólito e Mascena (2020) revela uma visão geral da situação, na amostragem feita com 249 consumidores/fãs, se obteve que 85% utilizam plataformas de Streaming para assistir animes, os quais 97,99% dos usuários acessam sites fansubs, mesmo que ainda assinem a plataformas pagas. Aparentemente essa dicotomia está longe de um fim, esse mercado ainda deve compreender a complexidade cultural envolvida na questão e tomar posições que o aproximem do consumidor. 

De todo modo devemos ter um olhar positivo. Com os animes em alta, pode ocorrer o resgate de obras não terminadas e a produção de mais conteúdo criativo e original. Um auge nunca visto e muitas novidades e possibilidades mundiais podem estar em um futuro próximo para os animes. 

  REFERÊNCIAS 

 Hipólito, B. E., & Mascena, K. M. C. (2020). Mídia Streaming e Pirataria: O comportamento do consumidor de Anime no Brasil. Consumer Behavior Review, 4(1), 38-52. 

 Soares, D.F.V. O processo histórico dos animes e mangás no Brasil. Unijuí. 2019.

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